O café tem deixado de ser apenas uma bebida do dia a dia para se tornar uma experiência, um negócio e uma oportunidade de desenvolvimento econômico em Roraima. À medida que o estado avança na produção e vê crescer o número de cafeterias e consumidores mais exigentes, a cadeia do café começa a se estruturar, conectando o campo ao mercado e abrindo novas possibilidades para empreendedores locais.
Esse movimento ganha ainda mais força em abril, com a celebração do Dia Mundial do Café, que reforça a importância do produto e evidencia o potencial de crescimento do setor no estado, além de impulsionar ações comerciais e aproximar o público de novas formas de consumo.
Hoje, o cenário da cafeicultura em Roraima é bem diferente de poucos anos atrás. Segundo o gestor do projeto de Agricultura Familiar do Sebrae Roraima, Helmes Filho, o avanço tem sido expressivo e demonstra um processo de consolidação que ainda está em curso no estado.
“O estado deu um salto impressionante. Em 2022, a área plantada era quase simbólica, com cerca de 0,5 hectares. Hoje, já são mais de 42 hectares distribuídos em 10 municípios, como Boa Vista, Cantá, Alto Alegre e regiões do sul do estado”, destacou.
A produção envolve cerca de 60 produtores e tem como principal base o Robusta Amazônico, um híbrido de Conilon e Robusta que tem se adaptado bem às condições climáticas locais. Além disso, a produtividade já chama atenção e indica um potencial competitivo dentro do cenário nacional.
“Enquanto a média nacional do café comum é menor, produtores familiares em Roraima, com uso de mudas clonais e irrigação, estão alcançando entre 80 e 120 sacas por hectare”, explicou.
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Imeru Café: produção com identidade e sustentabilidade
Além do crescimento em volume, o estado também começa a se destacar pela qualidade e pelo diferencial de produção. Roraima já conta com iniciativas de cafés especiais, com destaque para produções em sistemas agroflorestais e em comunidades indígenas, que agregam valor ao produto e fortalecem a identidade local.
Um dos exemplos é o Imeru Café, conduzido pela jovem empreendedora indígena Ana Karoliny. A história do negócio começou de forma simples, dentro da própria família, e evoluiu a partir da curiosidade e da busca por conhecimento.
“Tem cinco anos que iniciamos o processamento do Imeru. Já existia uma pequena plantação de café, que minha avó pediu ao meu pai que fizesse com algumas sementes que ela conseguiu. Mas a gente não processava o café”, contou.
A virada veio de forma inesperada, a partir de um teste que acabou abrindo novas possibilidades.
“Um amigo pediu uma amostra. Pegamos um café que já estava colhido há bastante tempo, fizemos o processo e enviamos. Quando ele torrou e mandou de volta, pediu que eu pesquisasse sobre cafés especiais. Quando fui pesquisar, me identifiquei com tudo aquilo. E assim surgiu o Imeru”, relembrou.
Hoje, a produção é feita em sistema agroflorestal, consorciando o café com outras culturas, o que garante não apenas sustentabilidade, mas também diversidade de produção ao longo do ano.
“Trabalhamos com café junto com banana e cupuaçu. Esse sistema já faz parte da cultura indígena, porque permite produzir diferentes alimentos no mesmo espaço e gerar renda ao longo do ano”, explicou.
O modelo contribui para a geração de renda contínua, reduz riscos e fortalece a autonomia das famílias envolvidas. Ao longo do tempo, o café também passou a ganhar espaço no mercado e a alcançar novos públicos.
“O Imeru sempre foi bem aceito em Roraima. Com o tempo, fui estudando e melhorando a qualidade, e hoje estamos conquistando novos públicos. A ideia é levar o café cada vez mais longe”, afirmou.
Mais do que um negócio, o projeto também tem impacto social e coletivo dentro da comunidade.
“Um dos nossos sonhos é transformar a realidade da minha comunidade através do café, o que já está acontecendo com o esforço de muitas pessoas. Novos agricultores começaram a produzir e a buscar espaço no mercado com um produto de qualidade”, disse.
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Do campo ao mercado e o crescimento das cafeterias

Se no campo a produção avança, nas cidades o café também ganha novos significados. O aumento no número de cafeterias e a mudança no comportamento do consumidor indicam um mercado em expansão, ainda em construção, mas com sinais claros de fortalecimento.
De acordo com Maria Luiza, trainee e gestora do projeto de Alimentos e Bebidas do Sebrae Roraima, o café tem se consolidado como uma oportunidade de negócio principalmente pela conexão com outros setores.
“O café tem se consolidado como uma oportunidade interessante em Roraima principalmente pela conexão com a gastronomia e o turismo. Já existe um movimento crescente de empreendedores atuando tanto na produção quanto no consumo, especialmente por meio das cafeterias”, afirmou.
Esse crescimento acompanha uma tendência nacional, mas com características próprias no estado, onde o consumo ainda está em processo de amadurecimento.
“As pessoas não buscam só o café em si, mas um ambiente agradável, um bom atendimento e uma experiência mais completa. Isso tem impulsionado o segmento e aberto espaço para novos empreendimentos”, explicou.
A valorização do produto também tem mudado o perfil do consumidor, que passa a buscar mais informação e qualidade.
“Hoje, o que mais se destaca é a combinação entre qualidade e experiência. O consumidor está mais exigente e valoriza um café de melhor qualidade, com origem e preparo diferenciados”, destacou.
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Flying Fox Café: experiência como diferencial
Essa mudança pode ser observada na prática em cafeterias da capital. Proprietária da Flying Fox, Raytna Alcântara acompanha de perto essa transformação e vê o café como elemento central de conexão com o público.
A trajetória dela no segmento começou de forma despretensiosa, a partir de um primeiro contato com cafés especiais.
“Em 2018, abrimos um empório de produtos mineiros e foi ali que tive meu primeiro contato com cafés especiais. Até então, o café era algo do dia a dia, mas comecei a perceber que existia um universo muito maior”, contou.
O interesse se transformou em negócio no ano seguinte, já com uma proposta mais definida.
“Em 2019, abrimos a cafeteria com essa visão mais clara. A ideia sempre foi não ser só um lugar para tomar café, mas um espaço onde as pessoas pudessem viver uma experiência diferente”, explicou.
Hoje, o café é o centro da proposta do negócio e guia toda a construção da experiência oferecida ao cliente.
“Ele não é apenas um item do cardápio, mas o ponto de conexão com o cliente. A ideia é que o cliente não só consuma, mas entenda, sinta e se conecte com o café”, afirmou.
Segundo ela, o comportamento do consumidor tem evoluído gradativamente, abrindo espaço para novas experiências.
“O consumidor tem evoluído. Hoje existe uma abertura maior para experimentar, conhecer novos métodos e entender a qualidade. Ainda é um mercado em desenvolvimento, mas essa mudança já é perceptível”, disse.
Nesse cenário, o diferencial vai além do produto e envolve todo o ambiente construído ao redor do consumo.
“O cliente busca uma experiência completa. O ambiente, o atendimento e a forma como ele se sente fazem muita diferença. Quando tudo isso está alinhado, o café deixa de ser apenas consumo e passa a ser um momento”, destacou.
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Valorização e oportunidades
A busca por cafés especiais também se tornou uma tendência no estado, abrindo espaço para produtos com maior valor agregado e novas formas de posicionamento no mercado.
“Existe uma tendência clara de valorização de cafés diferenciados, com mais qualidade e características sensoriais específicas. São produtos que proporcionam uma experiência diferenciada”, afirmou Maria Luiza.
Nesse cenário, o Sebrae tem atuado diretamente no fortalecimento desses negócios, apoiando desde a gestão até a ampliação de mercado, com foco na competitividade e na sustentabilidade dos empreendimentos.
“O Sebrae atua com foco no crescimento sustentável dos pequenos negócios, na valorização da identidade regional e na ampliação de mercado. Esse suporte acontece por meio de capacitações, consultorias, missões empresariais e ações de mercado, que ajudam a aumentar a competitividade e o faturamento dos empreendimentos”, explicou.
Para os empreendedores, isso representa tanto desafio quanto oportunidade, especialmente em um mercado que ainda está em formação.
“O principal desafio ainda é a educação do público e a construção de valor. Por outro lado, isso também é a maior oportunidade, porque existe muito espaço para crescimento, inovação e posicionamento”, avaliou Raytna.
Datas como o Dia Mundial do Café ajudam a impulsionar o setor e aproximar o consumidor desse universo.
“Essas datas são ótimas oportunidades para aproximar o cliente e dar mais visibilidade ao negócio. Muitas cafeterias criam ações especiais, como degustações e experiências diferenciadas”, explicou Maria.
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Desafios e futuro da cadeia produtiva
Apesar do avanço, a cadeia do café em Roraima ainda enfrenta desafios importantes. No campo, questões como irrigação e custo de energia impactam diretamente a produção e exigem investimento e planejamento.
“O maior gargalo ainda é a irrigação no verão severo e o custo da energia. Também há a necessidade de mão de obra qualificada para a colheita seletiva e de mais unidades de beneficiamento no estado”, destacou Helmes Filho.
Por outro lado, as oportunidades vão além da produção e envolvem toda a cadeia do café.
“Há espaço para viveiros certificados, consultorias, microtorrefações e até turismo rural, com rotas do café em comunidades indígenas e propriedades”, explicou.
A integração entre produção e mercado também começa a ganhar força e tende a se intensificar nos próximos anos.
“Essa conexão está crescendo. Cafeterias já buscam o grão local para oferecer uma experiência com identidade regional”, afirmou.
“Não é só plantar café. Há espaço para novos negócios em diferentes frentes, e o que a gente vê hoje é um setor que começa a se estruturar e a ganhar força, conectando quem produz com quem transforma e quem consome”, concluiu Helmes Filho.

