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Yule Brasil transforma acolhimento em negócio à frente de bar LGBTQIAPN+ em Boa Vista

Presidente da Abrasel Roraima, empreendedor criou um espaço voltado à comunidade LGBTQIAPN+ após sentir a falta de ambientes seguros e acolhedores na capital
Por Sebrae RR
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Frequentar bares e espaços de lazer em Boa Vista nem sempre era uma experiência confortável para Yule Brasil e seus amigos. Integrante da comunidade LGBTQIAPN+, ele lembra que muitas vezes saía para se divertir e acabava se deparando com situações desagradáveis, marcadas pela falta de acolhimento e respeito. O incômodo, que por anos fez parte da rotina, acabou servindo de inspiração para a criação do Squad Beer, hoje o único bar LGBTQIAPN+ da capital.

Aos 30 anos, Yule acumula experiências em diferentes áreas do empreendedorismo. Atualmente, além de comandar o estabelecimento, ele também preside a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), seccional Roraima. Mas a relação com os negócios começou muito antes, ainda nos tempos de escola.

O interesse pelo empreendedorismo surgiu na infância. Antes mesmo de ingressar na universidade, ele participava de projetos voltados à área, vendia produtos para colegas e buscava formas de transformar ideias em oportunidades. A afinidade com o tema continuou durante a vida acadêmica, quando passou a atuar em iniciativas ligadas à inovação e tecnologia.

Mais tarde, tornou-se cofundador de uma startup de educação voltada ao ensino de programação para crianças e adolescentes. A experiência ajudou a consolidar conhecimentos sobre gestão, liderança e desenvolvimento de negócios.

“Sempre gostei de empreendedorismo. Desde muito cedo participei de projetos e fui entendendo como era possível transformar ideias em algo concreto”, relembrou.

Foi em 2020, porém, que surgiu o projeto que mudaria sua trajetória profissional. Durante o período de flexibilização das restrições impostas pela pandemia, ele e um grupo de amigos começaram a comercializar narguilés em um espaço que já funcionava como bar. Pouco tempo depois, os proprietários ofereceram o estabelecimento e os amigos decidiram assumir o negócio.

Com o passar dos anos, a sociedade foi reorganizada e hoje o empreendimento é administrado por Yule e Rebecca Lopes, responsável pelas estratégias de marketing e comunicação do estabelecimento.

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A falta de espaços seguros inspirou a criação do negócio

A proposta, no entanto, seria completamente diferente da original. Quando assumiram o local, Yule e os sócios decidiram criar um ambiente voltado ao acolhimento da comunidade LGBTQIAPN+, algo que, segundo ele, ainda não existia em Boa Vista.

“Quando a gente saía para alguns bares da cidade, percebia que muitas vezes passava por situações desagradáveis. Não existia um local onde o público que a gente frequentava pudesse se sentir seguro e respeitado”, contou.

A partir dessa percepção nasceu a ideia de construir um espaço onde as pessoas pudessem se divertir sem receio de julgamentos, discriminação ou constrangimentos.

“Quando tivemos a oportunidade de abrir o bar, vimos a possibilidade de criar um espaço para nós e para outras pessoas da comunidade. Um lugar onde ninguém precisasse se preocupar com a forma de se vestir ou com a possibilidade de sofrer algum tipo de desrespeito”, afirmou.

O empreendimento começou de forma simples, mas aos poucos conquistou espaço entre os frequentadores da cidade. Inicialmente, a principal atividade estava ligada ao consumo de narguilés, tendência que ganhava força na época. Com o passar dos anos, o Squad Beer ampliou suas atividades, investiu em drinks autorais, noites temáticas, concursos, bingos e experiências interativas para os clientes.

Atualmente, o estabelecimento conta com uma equipe de 10 colaboradores e se consolidou como uma referência para a comunidade LGBTQIAPN+ e para o público que busca um ambiente acolhedor na capital.

Um dos diferenciais do local é justamente a participação do público. Em vez de uma programação musical fixa, os próprios frequentadores escolhem as músicas que serão tocadas ao longo da noite.

“É um espaço pensado para reunir amigos, conversar, compartilhar experiências e se sentir à vontade”, explicou. Para Yule, essa diversidade demonstra que a proposta do negócio ultrapassou a ideia inicial e se consolidou como um espaço de convivência.

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Os desafios de empreender em um mercado ainda marcado pelo preconceito

Assim como outros empresários do setor de bares e restaurantes, Yule precisou lidar com custos operacionais elevados, necessidade constante de investimento e mudanças no comportamento dos consumidores. No entanto, ele afirma que administrar um empreendimento voltado à comunidade LGBTQIAPN+ trouxe desafios adicionais.

Segundo o empreendedor, o estabelecimento enfrentou episódios de preconceito desde a inauguração. Entre eles estão denúncias recorrentes que, segundo ele, não se confirmavam quando as autoridades chegavam ao local.

“A gente sofreu e ainda sofre denúncias constantes. Muitas vezes a polícia chega ao local e não encontra nada que justifique aquela denúncia”, relatou.

Apesar das dificuldades, Yule acredita que a permanência do negócio ao longo dos últimos seis anos já representa uma conquista importante. Para ele, trabalhar com um público específico exige criatividade constante, capacidade de adaptação e disposição para se reinventar.

“Estamos sempre buscando formas de inovar, criar experiências e manter o espaço vivo. Isso exige dedicação diária”, afirmou.

Entre os momentos mais marcantes da trajetória está o convite para participar do primeiro festival gastronômico promovido pelo Mormaço Cultural. O reconhecimento, segundo ele, demonstrou que o empreendimento havia conquistado espaço não apenas dentro da comunidade, mas também na cena gastronômica e cultural da capital.

Mas as maiores conquistas vieram da relação construída com os clientes. Ao longo dos últimos anos, o espaço foi palco de encontros familiares, pedidos de namoro, pedidos de casamento e momentos importantes para frequentadores que encontraram no local um ambiente de acolhimento.

“Já recebemos relatos de pessoas que levaram a mãe pela primeira vez ao bar, o pai pela primeira vez. Já tivemos pedidos de namoro, pedidos de casamento e até convites para sermos padrinhos de casamento”, contou.

Para ele, essas histórias demonstram que o Squad Beer se tornou mais do que um empreendimento. “É muito emocionante perceber que fazemos parte da história das pessoas. Ver que elas guardam memórias positivas do lugar é o que mais nos orgulha”, afirmou.

Segundo Yule, dar visibilidade às trajetórias de empreendedores LGBTQIAPN+ durante o mês do orgulho também significa reconhecer a importância desses negócios para a comunidade.

“Quando um negócio LGBT fecha ou deixa de existir, a comunidade perde espaços. Continuar existindo, resistindo e crescendo também é uma forma de mostrar que estamos aqui e que fazemos parte da construção da cidade”, concluiu.