É possível vestir a história de um Estado? Para Sewbert Jaty e Andréa Sant’Ana, a resposta está nas roupas, nos grafismos, nas fibras, nas sementes, na cestaria e nas mãos de quem transforma elementos da Amazônia em peças únicas. Biólogos de formação, os dois criaram, em 2022, a Jaty Galeria, espaço que reúne arte, decoração, artesanato e moda autoral de diferentes pontos da região. Nesta segunda-feira (5), quando Roraima completa 38 anos, o trabalho desenvolvido pelo casal também ajuda a mostrar um pouco do que faz parte da identidade roraimense.
Jaty conta que a ideia começou antes mesmo de a galeria existir. Nas viagens pela Amazônia, ele e Andréa encontravam comunidades que produziam peças com grande potencial, mas que muitas vezes não conseguiam chegar ao mercado. Foi daí que surgiu a vontade de criar uma ponte entre esses produtores e quem tinha interesse em conhecer e consumir esses trabalhos.
“Em todo local que a gente ia, a gente percebeu que tinha muitos produtos com potencial muito grande para serem explorados, mas que as pessoas tinham muita dificuldade de vender esses produtos, por conta de estarem em comunidades mais afastadas, mais isoladas”, lembrou Jaty.

A oportunidade de transformar a ideia em negócio veio por meio do programa Inova Amazônia, do Sebrae, em 2022. A proposta apresentada pelo casal foi selecionada e, a partir dali, nasceu oficialmente a Jaty Galeria.
O que começou com a venda de acessórios e peças de arte foi crescendo. Hoje, a galeria trabalha com produtos de 27 locais diferentes da Amazônia e mantém contato com associações e artistas que representam comunidades de diferentes partes da região. Quando são consideradas as comunidades reunidas por essas associações, o alcance passa de uma centena de comunidades.
O modelo de trabalho começa com os próprios produtores apresentando o que têm disponível. A equipe da galeria avalia as peças, escolhe os produtos e compra diretamente das associações ou dos artistas. Mas existe outra parte importante nesse processo: conhecer a história por trás de cada item.
Quem fez? De onde veio? Qual material foi utilizado? Qual técnica foi usada? São perguntas que acompanham os produtos antes mesmo de chegarem às prateleiras. “Eles não querem saber só do produto por conta da beleza, mas por conta da história também, de quem faz, de como vive, de como essa matéria-prima é coletada”, explicou.
É por isso que, para Jaty, vender uma peça também significa contar uma história. Uma semente utilizada em um colar, por exemplo, pode revelar informações sobre a árvore de onde veio, a comunidade que fez a coleta e a relação daquele grupo com a natureza.

Essa preocupação aparece na forma como os produtos são apresentados ao público. Nas redes sociais, no site e nos espaços de venda, as peças são acompanhadas por informações sobre sua origem e seus produtores. “Esse storytelling ajuda até a vender. A pessoa diz: ‘isso não é só uma sementinha’. É uma sementinha que vem da árvore tal, que vem da comunidade tal, que vem do ambiente tal”, afirmou.
Roraima nas peças
No meio dessa grande Amazônia representada pela galeria, Roraima ocupa um lugar especial. Parte das peças é produzida no próprio Estado e carrega referências diretamente ligadas à cultura, à paisagem e aos povos que vivem aqui.

Na moda autoral, essa identidade aparece de maneira ainda mais evidente. As camisetas produzidas pela Jaty, por exemplo, utilizam tecido composto por 50% algodão e 50% de material reciclado de garrafas PET. Depois de confeccionadas, as peças recebem intervenções de artistas roraimenses.
Atualmente, oito artistas do Estado participam desse processo. O resultado é que uma mesma peça de roupa pode ganhar diferentes desenhos e intervenções, tornando cada unidade praticamente exclusiva. A ideia de exclusividade, aliás, é uma das características que Jaty aponta como parte da proposta da galeria.

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“A gente trabalha muito com exclusividade. Você vai adquirir uma peça daqui e a maioria das peças são exclusivas. A ideia é que você adquira aquele produto e só você tenha, porque existe esse toque artístico colocado nele”, explicou.
Essa mistura entre moda e identidade também aparece em uma blusa feita por uma costureira de Roraima e que recebe um grafismo pintado à mão por um indígena do Estado. Há ainda acessórios produzidos por indígenas Taurepang, Macuxi e Wapichana, além de peças feitas por artistas locais.
Nas prateleiras, a diversidade é grande. Cestas, bolsas, colares, pinturas, objetos de decoração, roupas, bonés e outros produtos dividem espaço com café produzido em Roraima, bebidas e itens de marcas locais.
Para Jaty, essa variedade ajuda a representar a própria formação cultural do Estado. “Roraima tem essa multiculturalidade muito grande, a sua grande maioria por conta dos povos indígenas, mas aí tem as pessoas que vêm de outros locais, que acabam agregando a cultura delas aqui também. Aí vira essa miscelânea”, afirmou.
Quem visita a galeria pode encontrar acessórios, produtos de marcas locais e peças que trazem desenhos e iconografias relacionadas ao Estado.
Há bonés com referências a Roraima, camisetas da marca Made in Roraima, pinturas e objetos que transformam elementos conhecidos pelos roraimenses em produtos que podem viajar para outros lugares.
Além da loja física, a Jaty comercializa os produtos pela internet e em marketplaces voltados à produção amazônica. Dessa forma, uma peça produzida por um artesão ou por uma comunidade distante pode chegar a consumidores de outros estados.
Para Jaty, é nesse momento que a moda, a arte e o artesanato cumprem um papel que vai além da venda. “A gente vê que as pessoas têm muita curiosidade referente a isso. Elas não querem saber só do produto por conta da beleza, mas da história também. Todas essas histórias ajudam a envolver as pessoas que gostam desses produtos da Amazônia e querem ter em casa ou vestir essas peças”, contou.
Segundo o biólogo, em um Estado marcado pela presença indígena, pelo Lavrado, pela diversidade cultural e pela chegada de pessoas de diferentes lugares, a identidade não cabe em uma única forma.
“Ela pode estar em um grafismo pintado à mão, em uma fibra trançada, em uma semente, em uma peça de roupa ou em um objeto produzido por alguém que aprendeu uma técnica passada entre gerações”, disse.
Onde encontrar a Jaty Galeria

Quem quiser conhecer de perto o trabalho pode visitar a Jaty Galeria, na Colab Cruviana, na Travessa Cerejo Cruz, nº 63, no Centro de Boa Vista. O espaço reúne peças de arte, moda, decoração e artesanato produzidas por artistas e comunidades da Amazônia. O empreendimento também pode ser acompanhado pelo Instagram @jaty_galeria.
