Transformar atividades já desenvolvidas nas comunidades indígenas em oportunidades de geração de renda foi o foco das oficinas de modelagem de negócios realizadas pelo Sebrae/RR em Pacaraima. A ação ocorreu nos dias 14 e 15 de setembro, nas comunidades Sorocaima 1, Tarau Paru e Arai, e reuniu cerca de 65 participantes das etnias Pemón, Macuxi e Taurepang.

A capacitação integrou a Trilha do Conhecimento e foi realizada a partir de uma solicitação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), com apoio da Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos (APITSM). O conteúdo foi direcionado a moradores que já trabalham com agricultura, artesanato, alimentação, comércio e serviços ou que pretendem iniciar uma atividade.
Para o tuxaua Arthur Chaua, da comunidade Tarau Paru, a oportunidade de participar de uma capacitação dentro da própria comunidade é importante para ajudar os moradores a organizar melhor as atividades que já desenvolvem e transformá-las em fontes de renda.
“É muito importante para nós e para os membros da comunidade, porque a gente precisava desse curso. As pessoas que vivem aqui podem montar seu negócio para vender e gerar renda para a família. Isso ajuda muito dentro da comunidade, porque cada pessoa pode trabalhar com aquilo que sabe fazer e buscar uma forma de melhorar sua renda. Quando a gente tem esse conhecimento, consegue pensar melhor no que já produz e em como pode organizar esse trabalho para que ele dê um retorno maior para a família”, afirmou.
A oficina também reuniu moradores de comunidades próximas. Foi o caso de Vilma Martinez, 31 anos, moradora da comunidade Samã, que participou da atividade em Tarau Paru junto com outros dez moradores. Parte do grupo caminhou cerca de uma hora até o local para participar da capacitação.
Vilma trabalha com produção de bolos, café da manhã e almoço, além de atuar com costura, artesanato e decoração de aniversários. Segundo ela, muitos moradores recorrem ao empreendedorismo diante da falta de empregos formais. A participante destacou que o conhecimento adquirido pode ser levado para dentro das próprias comunidades e ajudar outras famílias que também dependem dessas atividades.
“A maioria que participou hoje tem um empreendimento na própria comunidade, porque não tem um emprego oficial. A gente tenta levar o empreendimento para as pessoas que fazem a vida na nossa comunidade e, assim, ter uma renda para manter nossos filhos e familiares. Então, quando temos a oportunidade de aprender e melhorar aquilo que já fazemos, isso também pode ajudar outras pessoas da comunidade”, contou.
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Planejamento para os negócios
O analista de atendimento da Unidade de Atendimento Central e Norte (UACN) do Sebrae/RR e facilitador da capacitação, Fransllyn Silva, explicou que a modelagem de negócios foi trabalhada por meio do Canvas, ferramenta composta por nove blocos que ajudam a visualizar aspectos como clientes, proposta de valor, recursos e fontes de receita.
“É importante que eles tenham a visão de que têm uma ideia e pessoas que podem consumir aquele produto ou serviço, mas também precisam se adequar a esse perfil. É preciso pensar como um empreendimento, como um negócio. A ferramenta ajuda justamente a colocar essas ideias no papel e entender melhor como cada parte do negócio se relaciona”, afirmou.
Segundo Fransllyn, a participação dos moradores durante as oficinas mostrou o interesse em aprender ferramentas que possam ser utilizadas também em outros negócios. Para ele, a metodologia pode servir como uma base de planejamento para diferentes atividades desenvolvidas pelas comunidades.
“Os participantes estavam bastante interessados em conhecer e aprender. A gente trabalhou uma ferramenta que eles podem utilizar ao longo da vida em vários outros empreendimentos que realizarem. É uma ferramenta de planejamento que pode ser retomada sempre que eles tiverem uma nova ideia ou quiserem organizar melhor um negócio que já existe”, disse.
A associada de campo do ACNUR e ponto focal de assuntos indígenas em Pacaraima, Karolayne Mota, explicou que a iniciativa está inserida no contexto da Operação Acolhida e se relaciona ao Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (MPTF). A iniciativa é implementada por diferentes agências das Nações Unidas e busca apoiar ações de desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Segundo Karolayne, a atividade com o Sebrae busca fortalecer o empreendedorismo entre jovens e adultos, tanto para quem pretende iniciar um negócio quanto para moradores que já desenvolvem alguma atividade nas comunidades.
“Essa atividade possibilita abrir o horizonte dessas populações indígenas para pensar outras formas de autossuficiência e subsistência familiar. A ideia é trabalhar tanto o planejamento de futuros negócios quanto a organização e a melhoria dos empreendimentos que eles já possuem”, afirmou.
Para o analista da UACN do Sebrae/RR, Guilherme Santos, a parceria permite aproximar os serviços de apoio ao empreendedor de comunidades que estão distantes dos centros de atendimento. Ele destacou que o conteúdo é adaptado à realidade de cada local, considerando as atividades desenvolvidas pelos próprios moradores.

“A ideia não é chegar com uma solução pronta, mas conhecer a realidade do local e adaptar o conteúdo para aquilo que realmente faz sentido para cada comunidade. O empreendedorismo também pode ser uma ferramenta de geração de renda, autonomia e fortalecimento das próprias comunidades”, explicou.
Guilherme ressaltou ainda que a intenção é deixar ferramentas que possam continuar sendo utilizadas pelos participantes depois da capacitação.
“Mais do que realizar uma oficina, a gente quer deixar ferramentas que possam ser utilizadas no dia a dia e contribuir para o fortalecimento dos pequenos negócios. Esse trabalho reforça uma missão importante do Sebrae, que é estar onde o empreendedor está”, concluiu.

