O produtor Francisco Edvan Ferreira Barros, morador da comunidade Bom Intento, zona rural de Boa Vista, foi selecionado entre 242 inscritos de todo o país no 1º Concurso Nacional de Inventos de Máquinas, Equipamentos e Implementos adaptados à Agricultura Familiar e aos Povos e Comunidades Tradicionais.
O produtor é participante do programa ALI Rural, iniciativa do Sebrae/Roraima, que incentiva a inovação e a melhoria da gestão nas propriedades da agricultura familiar.
A invenção que colocou o produtor entre os finalistas é uma debulhadora de feijão verde, criada para facilitar o trabalho no campo e reduzir o esforço físico na colheita. Edvan participará da cerimônia de premiação durante a Feira Nacional de Máquinas e Tecnologias para a Agricultura Familiar, que será realizada entre os dias 16 e 18 de março, em Campinas, no estado de São Paulo.
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Debulhadora de feijão
A história da debulhadora começou a partir de um problema comum na rotina da produção agrícola. Há cerca de cinco anos, quando passou a viver no sítio da família, na região do Bom Intento, Edvan percebeu que o processo de debulhar o feijão manualmente exigia muito tempo e esforço.
Filho de agricultor e acostumado com a vida na roça desde a infância, ele decidiu buscar uma solução prática.
“Eu trabalho na agricultura desde pequeno. Quando a gente morava no Nordeste, meu pai já era agricultor e eu cresci ajudando no roçado. Hoje vivo da agricultura familiar aqui no meu sítio, plantando milho, feijão, abóbora e macaxeira”, conta.
A ideia da máquina surgiu justamente durante a colheita. “Debulhar o feijão na mão demorava muito. A gente perdia muito tempo. Foi aí que pensei em criar uma máquina para facilitar esse trabalho”, lembra.
A primeira versão da debulhadora foi feita de forma simples, com estrutura de madeira. O resultado, no entanto, surpreendeu.
“Deu certo. Depois eu resolvi melhorar e fiz a estrutura metálica. Hoje não me vejo mais debulhando feijão sem a máquina”, diz.
Segundo o agricultor, a debulhadora permite separar o feijão da vagem de forma rápida, sem quebrar os grãos.
“Você consegue debulhar sentado, conversando. O que antes levava horas agora leva minutos. E o feijão sai inteiro, sem machucar”, explica.
Isso porque o feijão já debulhado possui maior valor de mercado em comparação ao produto vendido ainda na vagem.
“Quando a gente vende na vagem, o lucro é pequeno. Quem ganha mais é quem debulha depois para revender. Com a máquina, a gente já faz esse processo aqui e consegue vender o grão, agregando mais valor ao produto”, afirma.
Segundo ele com o passar do tempo, outros agricultores da região começaram a se interessar pela invenção. “Alguns produtores já adquiriram a máquina e me disseram que ajudou bastante no trabalho deles também. Isso deixa a gente muito feliz”, diz.
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Criatividade no campo
A debulhadora de feijão não foi a primeira experiência de Edvan com invenções. A necessidade de resolver problemas do dia a dia no campo sempre estimulou sua criatividade.
Sem recursos para comprar equipamentos industriais, ele passou a adaptar ferramentas e desenvolver soluções próprias para a propriedade.
“Quando a gente mora no interior e não tem muito dinheiro, acaba criando alternativas para facilitar o trabalho”, explica.
Entre as adaptações já feitas por ele estão uma debulhadora de milho, uma plantadeira artesanal, além de equipamentos adaptados para outras atividades da produção rural.
“Às vezes dá certo, às vezes não. Mas a gente vai tentando”, conta.
Foi justamente essa capacidade de inovação que levou sua máquina a ganhar visibilidade nacional. Entre os inventos inscritos no concurso, apenas dez agricultores familiares foram selecionados em todo o Brasil. Edvan é o único representante da região Norte.
“Estou muito feliz por representar Roraima e poder mostrar a debulhadora de feijão verde para todo o Brasil”, afirma.
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Apoio do Sebrae e inovação no campo
A participação no concurso foi possível graças ao acompanhamento do programa ALI Rural, do Sebrae Roraima. O analista do Sebrae/RR, Lucas Basgal, explica que o projeto leva inovação e orientação técnica diretamente às propriedades rurais.
Segundo ele, o programa atua por meio do chamado extensionismo tecnológico, conectando os produtores a ferramentas de gestão, conhecimento e soluções práticas que ajudam a melhorar a produtividade e a organização do negócio rural.
“O produtor recebe acompanhamento técnico especializado e gratuito. São realizados diagnósticos da propriedade e orientações personalizadas para melhorar processos, gestão financeira e adoção de tecnologias adaptadas à realidade do campo”, explica.
Esse acompanhamento ocorre ao longo de vários meses, permitindo que o agricultor implemente mudanças concretas na produção e na comercialização.
“Em muitos casos, os produtores conseguem aumentar a produtividade e melhorar a renda com as orientações aplicadas na propriedade”, destaca.
Estímulo à inovação
Para o Sebrae, o caso de Edvan demonstra como o estímulo à inovação pode gerar resultados importantes no campo.
“O ALI Rural além de atuar na melhoria da produção o programa também estimula uma cultura de inovação entre os produtores, incentivando pesquisa e experimentação a partir da realidade deles”, explica Lucas Basgal.
Segundo ele, o reconhecimento nacional da invenção reforça esse potencial.
“Quando o produtor tem acesso a conhecimento e apoio técnico, ele também passa a desenvolver soluções criativas para os desafios da própria atividade. O fato de termos um participante do programa selecionado para um concurso nacional mostra exatamente isso.”
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Visibilidade nacional para a agricultura familiar
Os inventores selecionados participarão da cerimônia de premiação durante a feira nacional voltada à mecanização da agricultura familiar.
O evento reunirá agricultores, cooperativas, pesquisadores, empresas e instituições públicas para apresentar tecnologias adaptadas à realidade da produção rural de pequena escala.
Durante a feira, os participantes poderão apresentar seus inventos a especialistas do setor e ampliar a visibilidade das soluções desenvolvidas.
As invenções selecionadas concorrem a prêmios de R$ 10 mil. Ao todo, o concurso poderá premiar até 10 agricultores familiares, cinco pesquisadores e cinco empreendedores de micro e pequenas empresas.
Além da premiação, a programação do evento inclui seminários técnicos, demonstrações de equipamentos e debates sobre inovação, mecanização e políticas públicas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar no Brasil.
