Antes mesmo de falar em juros ou parcelas, o primeiro passo para acessar crédito ainda é entender o próprio negócio. Foi a partir dessa lógica que a orientação financeira oferecida durante a Caravana Sebrae Delas 2026, realizada nessa quarta-feira (8), em Boa Vista, buscou preparar mulheres empreendedoras para acessar financiamento com mais segurança.
Além da programação principal, com a palestra da atriz e empresária Giovanna Antonelli, o espaço dedicado ao atendimento reuniu instituições financeiras, cooperativas e equipes técnicas do Sebrae RR, oferecendo desde escuta inicial até encaminhamento para crédito.
A proposta, segundo o gestor de serviços financeiros do Sebrae RR, Cícero Neto, não é liberar recursos de forma imediata, mas estruturar a empreendedora para tomar decisões mais conscientes.
“O Sebrae faz uma escuta inicial para entender em que momento o negócio está. A partir disso, orienta sobre organização financeira, capacidade de pagamento, documentação e opções de crédito disponíveis”, explicou.
Ele destaca que, em muitos casos, o atendimento vai além do primeiro contato.
“Quando necessário, a empreendedora é direcionada para um atendimento mais aprofundado, com diagnóstico financeiro, preparação para crédito e conexão com instituições parceiras”, disse.
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O que impede o acesso ao crédito
Apesar da oferta de linhas e programas, o acesso ao crédito ainda esbarra em obstáculos básicos, que vão desde a gestão financeira até exigências do próprio sistema bancário.
Segundo Cícero Neto, um dos principais entraves está na falta de organização do negócio.
“As dificuldades estão relacionadas à falta de organização financeira, dificuldade em separar as finanças pessoais das empresariais, pouca clareza sobre custos e lucro e ausência de planejamento sobre como o recurso será utilizado”, afirmou.
Outro fator decisivo é a falta de garantias, exigidas por instituições financeiras para liberação de crédito.
“Muitas vezes, o negócio tem potencial, mas não consegue acessar crédito porque não tem garantia suficiente. Isso ainda é uma realidade”, disse.
Ele também chama atenção para a desigualdade enfrentada pelas mulheres.
“Os dados mostram que as mulheres ainda enfrentam mais dificuldade de acesso ao crédito e, em média, pagam taxas de juros mais altas. Isso aumenta ainda mais o desafio”, destacou.
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O papel do Fampe na liberação de crédito
Uma das principais ferramentas apresentadas durante o evento foi o Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas (Fampe), que atua justamente na redução dessa barreira.
Diferente de uma linha de crédito, o Fampe funciona como garantia para operações realizadas junto a instituições financeiras.
“O Fampe não concede o crédito. Ele viabiliza a operação. Ele entra quando a principal dificuldade é a falta de garantia”, explicou Cícero Neto.
Na prática, o fundo pode cobrir grande parte do valor exigido pelos bancos e, no caso de mulheres empreendedoras, essa cobertura pode chegar a até 100%.
“De forma geral, o Fampe pode complementar a garantia exigida e, em operações voltadas para mulheres, pode chegar a até 100% do valor. Isso amplia muito as chances de acesso”, disse.
Ele reforça, no entanto, que a aprovação final depende da análise das instituições financeiras.
“O Sebrae orienta, prepara e apoia, mas quem concede o crédito é o banco. A análise final não é nossa”, afirmou.
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Parceria amplia acesso e acompanhamento
A atuação conjunta entre Sebrae e instituições financeiras também foi destacada durante o evento. A Desenvolve Roraima, agência de fomento do estado, apresentou linhas de microcrédito com foco em empreendedores locais.
Segundo a gerente de atendimento da instituição, Carolina Aparecida, a parceria com o Sebrae permite oferecer crédito com acompanhamento antes e depois da liberação.
“A gente trabalha com microcrédito empreendedor e, em parceria com o Sebrae, utiliza o Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas, o Fampe, como garantia. Para mulheres, esse aval chega a 100%”, explicou.
Ela destacou que o diferencial não está apenas no acesso ao recurso, mas no suporte ao empreendedor.
“As mulheres têm consultoria pré-crédito e pós-crédito. É um crédito orientado, acompanhado. Isso faz toda a diferença para o sucesso do negócio”, disse.
A presença da instituição no evento, segundo ela, também tem papel estratégico.
“Muitas pessoas ainda não conhecem essas linhas ou acham que é difícil acessar. Então a gente está aqui justamente para mostrar que é possível e já iniciar esse contato”, afirmou.
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Bancos e cooperativas ampliam oferta no evento
Além das instituições públicas, bancos e cooperativas também participaram da ação, apresentando alternativas de financiamento para diferentes perfis de empreendedoras.
A gerente geral de agência do Banco Santander, Brenda Pereira de Castro, destacou a oferta de microcrédito com liberação rápida e menos burocracia.
“O nosso foco é o microempreendedor. Temos linhas de microcrédito que podem ser liberadas em até 24 horas após a abertura da conta”, explicou.
Ela ressaltou que o atendimento personalizado é um dos diferenciais.
“O cliente não precisa ir até a agência. A gente vai até o negócio, faz todo o processo lá e, em alguns casos, o crédito já sai na hora”, disse.
Segundo Brenda, a proposta é adaptar o atendimento à realidade das mulheres empreendedoras.
“Muitas não podem sair do negócio, são mães, têm múltiplas funções. Então a gente leva o serviço até elas”, afirmou.
A gerente de pessoa jurídica do Sicredi, Hayla Nascimento, também destacou o papel das cooperativas no apoio ao empreendedorismo feminino.
“Como cooperativa, a gente entende que a empreendedora também é dona do negócio. E temos linhas específicas, inclusive com o apoio do Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas, o Fampe”, explicou.
Ela ressaltou que há diversas opções de crédito, que variam de acordo com o perfil da empresa.
“Temos linhas como BNDES, FNO, microcrédito, Pronampe. Tudo depende da análise de cada caso”, disse.
No Sicoob, o foco também foi a aproximação com as empreendedoras. O gerente José Cícero Francisco dos Santos destacou que o primeiro passo é a formalização e o relacionamento com a cooperativa.
“A gente orienta a abrir conta, se associar e começar a movimentar. A partir disso, conseguimos liberar crédito conforme o perfil”, afirmou.
Segundo ele, o objetivo principal é apoiar o crescimento dos negócios.
“Nosso papel é estar junto, apoiar essas mulheres e ajudar no desenvolvimento dos empreendimentos”, disse.
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Interesse cresce entre quem quer começar
Entre as participantes, o interesse por crédito e orientação foi um dos pontos mais buscados. A empreendedora Paloma Miranda Soares dos Santos está em fase de transição de carreira e busca informações para estruturar um novo negócio.
“Eu estou começando agora em um ramo totalmente novo, que é o agro. Então estou buscando informação, capacitação e entendendo como funciona o crédito”, afirmou.
Ela contou que já passou por outros empreendimentos e vê nesses eventos uma oportunidade de aprendizado.
“Eu sempre busco esse tipo de evento. É importante para quem quer empreender, principalmente para mulheres”, disse.
Durante a programação, Paloma buscou informações em diferentes instituições.
“Peguei material do Santander, de cooperativas como Sicredi e Sicoob, além da Desenvolve Roraima e do Banco da Amazônia”, relatou.
Segundo ela, o acesso facilitado ao crédito pode ser decisivo para tirar projetos do papel.
“Muitas dessas instituições realmente ajudam e podem alavancar o negócio. Isso faz diferença para quem está começando”, afirmou.
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Crédito como ferramenta, não como fim
Para o Sebrae, o principal diferencial está na forma como o crédito é tratado. Mais do que liberar recursos, a proposta é garantir que ele seja utilizado de forma estratégica.
“O diferencial é o crédito orientado e assistido. O crédito não é o fim, ele é uma ferramenta de crescimento”, destacou Cícero Neto.
Segundo ele, o acompanhamento antes e depois da liberação é essencial para evitar endividamento e garantir resultados.
“A gente prepara antes e acompanha depois, para que esse recurso realmente gere impacto positivo no negócio”, afirmou.
Para ele, a mudança de entendimento sobre o crédito é essencial para que mais mulheres consigam crescer de forma sustentável.
“Quando a empreendedora entende o crédito como ferramenta e se prepara para isso, ela aumenta muito as chances de sucesso. É esse o nosso papel aqui”, finalizou.

