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A oficina de panelas de barro tem chamado a atenção do público no Viva Roraima 2026 ao transformar um saber tradicional indígena em experiência prática e acessível, aproximando visitantes da técnica ancestral desenvolvida por artesãs da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Realizado pelo Sebrae e pelo Governo do Estado de Roraima, com apoio do Sest Senat, o evento segue até domingo (26), no Parque Anauá, em Boa Vista.
Na Casa Roraima, o público participa da produção de mini panelas e acompanha de perto as etapas da técnica tradicional. A atividade evidencia a conquista da primeira Indicação Geográfica do estado, reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), resultado de um trabalho de valorização conduzido junto às comunidades indígenas.
A oficina ocorre das 17h às 22h e integra a programação de experiências do evento. A proposta é aproximar os visitantes de um processo que envolve conhecimentos tradicionais, relação com o território e organização coletiva das artesãs, ao mesmo tempo em que apresenta a adaptação da técnica para o formato de vivência.
Da tradição ao reconhecimento
A atividade foi estruturada para traduzir ao público um processo que, na prática tradicional, demanda tempo e etapas específicas. Segundo a analista do Sebrae Roraima, Kamila Brasil, a oficina surgiu como forma de dar visibilidade a um trabalho já consolidado nas comunidades.
“A oficina de panelas de barro surgiu a partir da valorização de um trabalho muito importante que já existe no território. Nós temos a indicação geográfica das panelas de barro, resultado de uma atuação do Sebrae junto às comunidades indígenas, reconhecendo toda a técnica específica envolvida nessa produção tradicional”, afirmou.
Ela explica que foi necessário adaptar o processo para permitir a participação do público durante o evento. “Como uma panela grande pode levar cerca de três horas para ser produzida, optamos pela confecção de mini panelas. Assim, os visitantes conseguem participar, ter contato direto com as artesãs e entender a técnica. Não é apenas uma oficina, é um momento de troca e aprendizado”, completou.
Técnica, ritual e ancestralidade
Para os representantes das comunidades indígenas, a produção das panelas vai além da técnica e envolve valores simbólicos, espirituais e regras específicas de manejo do barro. O integrante da associação, Enoque Raposo, afirma que o processo carrega um significado que ultrapassa a prática manual.
“A oficina trata de um processo ancestral. Para nós, povos indígenas, esse é um barro sagrado, e por isso existem regras ancestrais que precisam ser respeitadas. Existem rituais e cuidados fundamentais para preservar sua essência”, destacou.
Ele também ressaltou a importância da visibilidade gerada pelo evento e do reconhecimento recente conquistado pelas comunidades. “Esse reconhecimento mostra que continuamos preservando essa tradição única da Raposa Serra do Sol. O Sebrae tem sido um parceiro importante, levando nosso trabalho para outros espaços e ampliando o conhecimento sobre esse produto”, afirmou.
A artesã Edilene Raposo, responsável por conduzir a oficina, avalia que a certificação representa um avanço na valorização do trabalho desenvolvido pelas mulheres indígenas.
“No Brasil, a panela de barro de Roraima foi a segunda do país a receber esse reconhecimento de Indicação Geográfica. Para nós, é um privilégio ver nosso trabalho sendo divulgado. Durante muito tempo não tivemos oportunidade de mostrar esse conhecimento”, disse.
O diretor superintendente do Sebrae Roraima, Emerson Baú, destaca que o reconhecimento por meio da Indicação Geográfica é resultado de um trabalho iniciado há alguns anos.
“A Indicação Geográfica das panelas de barro é resultado de um trabalho que o Sebrae vem desenvolvendo desde 2022. A partir desse acompanhamento, conseguimos estruturar o pedido junto ao INPI. Em 2025, saiu oficialmente o registro, tornando-se o primeiro registro de Indicação Geográfica de Roraima”, explicou.
Segundo ele, o processo foi construído diretamente com as artesãs, considerando a importância cultural e econômica da atividade para o estado.
Técnica, ritual e experiência
A participação direta do público é um dos pontos centrais da atividade. Durante a oficina, os visitantes recebem orientações das artesãs e acompanham o processo de modelagem do barro, adaptado para o tempo do evento.
A estudante Beatriz Nascimento relata que a experiência vai além da prática manual. “Foi a primeira vez que eu fiz uma panela de barro. Existe todo um cuidado, uma explicação antes de começar. A gente segue cada orientação com respeito. Foi uma experiência muito marcante”, afirmou.
Já Thaís Damásio destacou o caráter educativo da atividade. “Foi uma imersão cultural. Elas não ensinam só a técnica, mas também os costumes e a forma como esse conhecimento é passado entre gerações. É um aprendizado que vai além do fazer”, disse.
Ao final da vivência, as peças produzidas passam por um processo de finalização e são entregues aos participantes, que levam consigo o resultado da experiência e o contato direto com esse saber tradicional.

