A voz de Ana Paula carrega o mesmo tom vibrante que ecoa em suas criações. Cores, texturas e símbolos se entrelaçam em tecidos que contam histórias da Amazônia, da ancestralidade e da resistência criativa. À frente da Capivanarte, marca que une arte, moda e sustentabilidade, a artista plástica e empreendedora celebra um momento histórico: ver suas peças representando Roraima na loja colaborativa do Sebrae durante a COP30, que acontece a partir de 9 de novembro em Belém (PA).
O feito não é apenas pessoal. É um símbolo do quanto a economia criativa e a moda sustentável da região Norte começam a ocupar o espaço que merecem, e de como o Sebrae Roraima tem sido fundamental nesse processo de valorização e visibilidade para negócios que unem identidade cultural e propósito ambiental.
Das tintas ao tecido: o nascimento de uma marca amazônica
Antes de se ver como artista, Ana Paula se reconheceu como alguém inquieta, curiosa e disposta a experimentar. A Capivanarte nasceu em 2018, quando ela e seu companheiro, também artista, indígena e colaborador da marca, começaram a explorar técnicas de pintura e tie-dye em roupas de maneira artesanal. A princípio, era apenas um hobby, mas a receptividade do público mostrou que havia ali algo maior.
“Comecei pintando roupas para mim, sem pretensão. Depois os amigos começaram a se interessar, comprar, e a coisa foi crescendo. Fomos aprimorando, estudando tecidos africanos e técnicas de pintura manual. A Capivanarte foi se transformando em um espaço onde eu podia criar e, ao mesmo tempo, empreender”, relembra.

A transição da arte para o empreendedorismo foi natural e desafiadora. Aprender sobre precificação, atendimento e gestão de estoque fez parte do processo. Mas o olhar artístico nunca se perdeu. “Cada peça tem uma história. Carrega um traço de cultura indígena, africana e amazônica. São roupas, mas também são narrativas visuais”, explica Ana Paula.
A virada com o Sebrae: do ateliê à vitrine
O ponto de virada veio quando Ana Paula participou de um evento estadual e conheceu a equipe do Sebrae Roraima, que apresentou a ela as possibilidades de inserção em projetos e feiras voltadas à moda autoral e à sustentabilidade. Desde então, a Capivanarte passou a integrar a rede de empreendedores apoiados pela instituição.
Com esse suporte, Ana participou de eventos como o Roraimoda, o Amazontech e uma imersão de negócios em São Paulo, onde pôde ampliar seu networking com empreendedores e fornecedores do setor têxtil. “Com o Sebrae, consegui entender melhor o mercado e mostrar que a moda autoral também tem espaço. O Sebrae abre portas que sozinha eu não conseguiria abrir”, conta.
A gestora de mercado do Sebrae Roraima, Gabrielle Ribeiro, destaca que a atuação da instituição vai além de fomentar negócios locais: é sobre conectar histórias que representam a região.
“A loja colaborativa é uma iniciativa do Sebrae Nacional e do Sebrae Pará, que convidou todos os estados a enviarem marcas alinhadas à bioeconomia e à sustentabilidade. Roraima teve 11 empresas aprovadas, e ver uma marca como a Capivanarte nesse grupo mostra o potencial da criatividade roraimense”, afirma.
Gabrielle explica que os produtos selecionados passaram por curadoria técnica, estarão disponíveis em dois espaços da COP30 e também serão exibidos em um marketplace no Mercado Livre, ampliando o alcance digital das marcas amazônicas.
“É uma oportunidade de colocar Roraima na vitrine do mundo, mostrando que nossos empreendedores têm produtos de qualidade, propósito e identidade”, reforça.
Moda, sustentabilidade e pertencimento
Mais do que roupas, as peças da Capivanarte são um manifesto pela valorização da natureza e da cultura amazônica. Ana Paula faz questão de escolher matérias-primas como algodão, viscose e fibras naturais, priorizando processos manuais e o reaproveitamento de sobras de tecido. “Os retalhos viram bolsas, colares, brincos. Nada é desperdiçado. Essa é a essência da marca, criar com consciência e respeito ao meio ambiente”, explica.
A artista acredita que o espaço conquistado na COP30 é uma extensão natural dessa filosofia. “A conferência fala sobre preservação, sobre o futuro do planeta. E é exatamente isso que tento expressar na minha arte: a importância de manter vivas nossas raízes culturais e cuidar do que temos de mais valioso, o meio ambiente”, diz.
O impacto simbólico da COP30
Levar uma marca roraimense para a COP30 tem um peso simbólico enorme. Pela primeira vez, a conferência global do clima será sediada na Amazônia, e as empresas participantes terão a chance de apresentar suas soluções sustentáveis para um público internacional.
Para Ana Paula, é também um momento de reconhecimento e representatividade. “É a primeira vez que a COP acontece no Brasil, e estar lá, representando Roraima, é uma alegria imensurável. Quero que as pessoas vejam que a moda também pode ser sustentável, que ela está ligada ao clima, à cultura e à economia. É um orgulho poder mostrar isso com o meu trabalho.”
Da Amazônia para o mundo: a força da bioeconomia criativa
A presença de marcas como a Capivanarte na COP30 é um reflexo direto do fortalecimento da bioeconomia amazônica, um conceito que une sustentabilidade, inovação e geração de renda a partir dos recursos naturais da floresta. O Sebrae tem investido nesse modelo como estratégia de desenvolvimento regional, valorizando cadeias produtivas locais que respeitam o meio ambiente.
“A gente tem muitos desafios, desde a logística até a certificação dos produtos. Mas também temos um potencial enorme. O que o Sebrae faz é dar visibilidade e suporte técnico para que esses produtos possam alcançar o mercado nacional e internacional”, explica Gabrielle.
Ana Paula vê nisso a confirmação de que está no caminho certo. “Quando comecei, não imaginava que um dia minhas roupas estariam em um evento mundial. Isso mostra que, mesmo vindo de um estado pequeno, é possível crescer quando a gente acredita no que faz e tem apoio. O Sebrae foi essencial para que eu chegasse até aqui.”
Uma inspiração para outros artistas
Ana Paula reflete sobre sua trajetória e deixa um recado para outros artistas e empreendedores da indústria criativa que, como ela, transformam a paixão em profissão.
“Empreender é desafiador, principalmente no início. Mas o que move a gente é a criatividade e a vontade de fazer diferente. O importante é não desistir e entender que, sozinhos, não chegamos longe. Precisamos de parcerias, de pessoas e de instituições que nos apoiem. O Sebrae foi essa ponte para mim.”
A Capivanarte é o símbolo de uma moda que respeita o tempo, o território e as pessoas. E na COP30, ao lado de outras dez marcas roraimenses, sua presença será um retrato vivo do que a Amazônia tem de mais bonito: arte, cultura e propósito.
