Se para muitos o Carnaval significa música alta e multidões, para outros o feriado é a oportunidade de desacelerar. Longe da folia, cresce a procura por roteiros que valorizam a natureza, o descanso e a troca cultural. Em Roraima, esse movimento fortalece o turismo comunitário e se transforma em oportunidade de geração de renda para famílias indígenas.
O crescimento desse perfil de turista tem sido acompanhado pelo Sebrae, que vê no turismo de experiência e de base comunitária uma oportunidade estratégica para o fortalecimento dos pequenos negócios no estado.
Segundo a Agência Kauwê Turismo, cliente do Projeto Setorial de Turismo do Sebrae, durante o Carnaval há um crescimento significativo na procura por roteiros fora do circuito tradicional das festas. A agência atua com grupos reduzidos, de no máximo 20 pessoas, priorizando um turismo mais consciente e alinhado ao ritmo das comunidades visitadas.
“Muitas pessoas buscam exatamente o oposto da agitação. Elas querem tranquilidade, contato com a natureza e experiências autênticas, e o Carnaval acaba sendo uma oportunidade para esse tipo de vivência”, explicou Karynna Makuxi, coordenadora de Turismo da Comunidade Indígena Kauwê.
A Comunidade Indígena Kauwê do Alto Miang está localizada em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, e desenvolve atividades de turismo de base comunitária que unem geração de renda, valorização cultural e preservação ambiental, com experiências conduzidas pelas próprias famílias da comunidade.
O perfil dos visitantes inclui casais, famílias, pequenos grupos de amigos e viajantes individuais que valorizam experiências profundas, responsáveis e personalizadas. “O fato de trabalharmos com grupos pequenos atrai um público que prefere exclusividade, acolhimento e, principalmente, respeito ao território e à cultura local”, destacou Karynna.
Entre os roteiros mais procurados no período estão as vivências em comunidade indígena, trilhas leves, contemplação de paisagens naturais, pôr do sol nas serras, experiências gastronômicas tradicionais e a Rota do Café Artesanal. As atividades incluem hospedagem em chalés, pernoite em redário e experiências pensadas para grupos pequenos, garantindo uma vivência tranquila e alinhada ao turismo de base comunitária.
“Cada roteiro é construído com cuidado, respeitando o tempo da comunidade e oferecendo ao visitante uma experiência verdadeira, que vai além do passeio e promove troca cultural”, ressaltou a coordenadora.
Renda distribuída e impacto coletivo
Mesmo com o fluxo controlado, o turismo durante o Carnaval gera impacto econômico direto para a comunidade. No período, a agência costuma atender de um a dois grupos, o que representa um fluxo estimado de 15 a 30 visitantes ao longo de todo o feriado.
Segundo Karynna, esse modelo fortalece toda a cadeia do turismo comunitário. “Mesmo com a limitação de público, a renda é distribuída entre diferentes famílias e serviços locais. Isso garante organização, qualidade no atendimento e respeito ao ritmo da comunidade”, afirmou.
Atualmente, o turismo no período gera renda direta para cerca de cinco a oito famílias, envolvendo atividades como recepção, alimentação, condução de trilhas, logística, organização comunitária, produção artesanal e agricultura local, como o café artesanal.
Além disso, parte dos recursos arrecadados com os pacotes turísticos comercializados pela Agência Kauwê Turismo é destinada ao caixa geral da comunidade. “Esse recurso é usado em benfeitorias coletivas, o que faz com que o turismo contribua de forma direta e indireta para toda a comunidade, fortalecendo o protagonismo indígena e garantindo que a atividade aconteça de forma responsável e contínua”, explicou Karynna.
Carnaval como estratégia para os pequenos negócios
Para o Sebrae, o Carnaval vai muito além da festa e funciona como um acelerador de consumo, turismo e visibilidade para os pequenos negócios. De acordo com Gabrielle Ribeiro, analista do Sebrae, o principal desafio ainda está na forma como muitos empreendedores se posicionam no mercado.
“O turista já existe, o calendário favorece, mas é preciso se posicionar melhor para ser encontrado, lembrado e escolhido”, avaliou. Segundo ela, o comportamento do consumidor mudou, e hoje a decisão de compra passa principalmente pelo ambiente digital.
Redes sociais como Instagram, Google Perfil de Empresa e WhatsApp deixaram de ser apenas vitrines e passaram a atuar como ferramentas estratégicas de vendas. Conteúdos atualizados, fotos reais, vídeos curtos, localização marcada e uso de hashtags ligadas à cidade, ao feriado e ao tipo de experiência aumentam a visibilidade dos negócios no momento em que o turista está procurando.
A analista destaca ainda que o Carnaval pode ser usado como um laboratório de mercado. “É o momento de testar produtos, ajustar preços, entender o comportamento do turista e melhorar atendimento e comunicação. Quem aproveita bem esse período não apenas aumenta o faturamento imediato, mas também conquista clientes para outros feriados ao longo do ano”, concluiu.
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